quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A cara do pai ( 7 )

Trisha, quando atuava na TV Liberal


Foi na filha Trisha que o veterano narrador Cláudio Guimarães viu sua herança no rádio esportivo, que já se aproxima dos 60 anos, provavelmente se prolongar ainda mais. Embora a simpática morena tenha preferido a televisão para demonstrar a influência do DNA de seu genitor no exercício profissional.

Com atuação no microfone esportivo paraense desde que a Rádio Educadora de Bragança (sua terra natal) foi inaugurada em 1962, Cláudio, que começou antes dos 15 anos, sem tanta demora viria estudar em Belém e aproveitou para ingressar na equipe da extinta Guajará recém montada sob o comando do saudoso Jayme Bastos.

Mostrou competência e logo  transferiu-se para a equipe da Rádio Clube emissora por onde tem atuado na maior parte de sua longeva carreira. Já esteve na Liberal por duas vezes a na Rauland-FM quando a emissora estreou no futebol em 1991.

Trisha iniciou a carreira  em fins dos anos 1990 como repórter e depois apresentadora na TV Liberal com presença no Globo Esporte local na hora do almoço;  passou pela RBA(canal 13) , teve ligeira militância na TV pernambucana e depois do retorno à Belém, foi para a Cultura (canal 2) apresentar um programa (Meio Campo) em companhia de um colega, antes das transmissões dos jogos do campeonato paraense no ano passado. Tanto como repórter  quanto como apresentadora, Trisha tem boa presença de vídeo e desembaraço verbal , o que lhe dá condições para ser considerada uma das melhores entre tantas que atuam ou já aturam no esporte televisivo de Belém.


Cláudio tem uma longa carreira no rádio

O lendário Antonio “Baena” Santos

O árbitro Antonio Santos  que teve longa  atuação  durante toda  a década de 1960, era um remista tão  indisfarçável,   que a irreverencia do saudoso Mestre Calá o apelidou de Antonio “Baena” Santos em sua coluna “Mestre Calá Manda Brasa”, publicada em O Liberal pré Romulo Maiorana.

Moreno, atarracado, de estatura mediana, Antonio Santos criou em torno de seu nome extenso rol de anedotas, todas mostrando a “facciosidade”  do folclórico árbitro. Nos anos 1960, o Remo só conseguiu ganhar três títulos paraenses:  o do começo da década (1960), 64 e 68. O restante foi tudo abocanhado pelo maior adversário, o Paissandu. Foram sete campeonatos em uma década, feito que o Remo só viria a superar nos anos 1990,  com oito títulos, sendo inclusive Penta (1993 a 97) e ainda em 90/91/99.

Em algumas partidas contra os considerados times pequenos (Júlio César, Combatentes, Liberato de Castro e Avante , entre outros) o time azulino dava constantes vexames, se não perdendo, mas amargando em campo para conseguir pelo menos empatar o jogo. A época era tão adversa para o Leão que o mesmo Mestre Calá, longevo cronista de perceptível simpatia bicolor, passou a chamar o Baenão de “Estádio dos Aflitos” pelo constante sofrimento da galera azulina em seu próprio estádio.





Em um desses jogos em que o time azulino perdia para um do chamado  “pelotão  dos menores”, o árbitro era Antonio Santos. Com o placar desfavorável em 1 a 0, e o jogo já se exaurindo tanto no tempo normal quanto nos descontos, um jogador da equipe vencedora passa perto do árbitro e reclama: "Seu juiz, esse jogo não acaba nunca?”. E o árbitro teria sido taxativo em sua resposta: "Vocês não deixam o Remo empatar...”.  Dito e feito: quando o Leão conseguiu o gol do empate, Antonio Santos encerrou o jogo.

Em outra ocasião, ele estava atuando como bandeirinha (hoje auxiliar técnico) e num lance confuso com a bola saindo pela linha lateral, Rubilota, pelo Remo, e outro jogador adversário disputam para ver a quem pertencia a cobrança do arremesso manual. E dirigem-se ao auxiliar do árbitro: “De quem é a bola, seu bandeira?”. Ele retruca de imediato: ”É nossa Rubilota”. E o atleta remista, meio atônito pela inesperada resposta do bandeira, indaga:” Nossa, de quem?”. “Tu sabes que é do Remo”, dissipa a dúvida sem cerimônia, o “imparcial”  Antonio Santos. Para espanto do outro jogador, mais do que evidente.

O lendário árbitro sabia, entretanto,  levar as críticas e gozações  numa boa e,  por longo tempo, sendo ou não de fato simpatizante azulino, como tudo  fazia crer, não teve seu nome vetado para continuar apitando. Pelo menos os jogos do Remo... 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A cara do pai (6)

Quando o narrador Jorge Luiz trocou a Marajoara-AM pela Metropolitana –FM em 2013, levou consigo um expressivo número de integrantes dos Titulares do Esporte da emissora de Carlos Santos.

Entre eles, o comentarista Nonato Santos (falecido), os repórteres, Chico Chagas, Mário Jorge e Laulito Miranda, além do comentarista ( iniciante) Daniel Barcessat e o narrador revelação Henrique Amado. Incluso ainda nesse time, seu filho Felipe Silva, que estagiava como repórter em sua equipe.

Jorge Luiz que começou na Educadora de Bragança, sua terra natal, veio para Belém no começo dos anos 1980 e logo firmou-se na equipe da Marajoara, quando Jayme Bastos e Ronaldo Porto dividiam a chefia e a narração do futebol.

Com a saída de ambos –Ronaldo para o recém inaugurado canal 13 da RBA (Rede Brasil Amazônia) do saudoso empresário goiano Jair Barnardino e Jayme para cuidar da montagem de sua própria emissora, a Maguary-AM em Ananindeua, Jorge Luiz passa a ser o principal narrador dos Titulares do Esporte. Dividia com Toninho Silva as narrações dos jogos. Depois transfere-se para a Liberal (1988) mas sem tanta demora retorna à Marajoara onde permaneceu por quase 15 anos. Com o som da emissora da Rua Campos decaindo de intensidade e consequente nitidez, e a promessa de um novo transmissor que nunca se concretizava acabou deixando a emissora e apostou no no sucesso da Metrô-FM onde já está há seis anos com boa audiência, principalmente depois que a Liberal extinguiu sua equipe na segunda metade do ano que está se encerrando.

Dois nomes ganharam destaque no novo time do Garotinho na FM de Barcarena: o jovem narrador Henrique Amado e o repórter Felipe Silva que aos poucos foi se firmando como uma repórter de vocabulário seguro e gramaticalmente correto, além, de habilidoso nas perguntas que formula de modo objetivo e com timbre vocal perceptível. . Quando atua nas pontas-de-gol Felipe também sabe dar seu recado, ao fornecer aos ouvintes detalhes complementares ao lance do narrador.

Juntamente com Saulo Zaire, são duas boas revelações na reportagem de campo.

Jorge Luiz começou em Bragança
Felipe Silva é um bom repórter


Intelectual não gosta de futebol?


Paulo Francis cunhou a frase que serviria para demonstrar o estado de ânimo do verdadeiro intelectual. Talvez estereotipado na intelligentsia carioca: “Intelectual não vai à praia. Intelectual, bebe”.

E o futebol ? Também seria rejeitado no cotidiano dos pensadores mais refinados? Parece que nem tanto. Neste livro UM TIME DE PRIMEIRA lançado em 2014 pela Nova Fronteira, um punhado de escritores e jornalistas fala sobre o “soccer”, cada qual ao seu estilo e à época em que escreveu para a coletânea. Alguns são conhecidos pelo seu embrião com o “o esporte das multidões”: Nelson Rodrigues, João do Rio, Rubem Fonseca e Mário Filho.

Vale a pena dar uma olhada e ler os textos originais desse time da fina flor do Lácio.

Edu, o melhor de todos



A voz “aveludada” de Eduardo Tavares, agradável de seu ouvir, ganhava, porém,  um timbre dinâmico nas informações do Plantão Esportivo da Rádio Clube.

Ele foi o substituto de José Maria Nobre Gonçalves, outro monstro sagrado da equipe chefiada  pelo mítico Edyr Proença e cuja voz contrastava com a de Edu, por ser de timbre forte, embora de tom atraente. Ambos, porém, com a mesma dinâmica nas  informações sobre os resultados dos jogos no pais e no exterior. Edu  pegou o inicio da Loteria Esportiva,  quando os plantonistas passam a ter expressiva participação durante as transmissões do futebol. Com os ouvintes acompanhando com a máxima atenção as informações sobre os jogos que integravam a loteca semanal.

Por mais de uma década, depois de surgir na Guajará em 1965,  Edu além de informante foi também o redator e seguro apresentador do programa As primeiras do Esporte, às 13h. Com dicção clara que complementava a bela voz, sabia “segurar” com improviso acurado e verbalmente correto, qualquer interrupção de uma partida. Ficava no ar sozinho sabendo se expressar  ao imaginar situações  que prendessem o ouvinte até o restabelecimento normal do jogo. Em Belém ou na retransmissão por outra emissora de fora do estado. Tudo transcorria normal, apoiado é claro, pelos rádio-escutas do Plantão. Naquele tempo pré-internet formado por Bellar Pereira (já falecido), Elder Bino,  Flávio Moreira e Pedro Hamilton Nery.

Estudante de Medicina, depois que formou-se em meados dos anos 1970, Edu passou a exercer a profissão de médico em vários municípios do interior até se aposentar.

Esta foto é do ano em que faleceu (2010) quando pela última vez esteve na sede campestre da nossa Associação dos Cronistas e Locutores  Esportivos do Pará (ACLEP) levado por mim que o conhecia desde a Praça Brasil onde residíamos nas imediações.

Edu Tavares em sua última visita à sede da ACLEP (2010)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O Sobrenatural de Almeida



O misticismo integra também a essência do futebol. E entranha-se nele como a desdenhar da lógica que procura-se encontrar nesse esporte tão complexo.

Não foi à toa que a genialidade de Nelson Rodrigues foi buscar no fictício personagem sobrenatural de almeida as razões que a própria razão menospreza para justificar certos fatos acontecidos na universo do futebol.

O Cruzeiro é considerado um dos clubes mais bem estruturados no país. Isso desde os anos 1960. Excede em títulos estaduais,  nacionais e duas Libertadores. Na década de 1990 deu um salto gigantesco modernizando a Toca da Raposa em uma parceria com uma empresa norte americana que causou polêmica entre seus associados . Mas que sacudiu o clube do Barro Preto de Belo Horizonte.

Com raízes italianas o que comprova sua primeira denominação como Palestra, foi a partir da chegada de Tostão –sua maior estrela em todos os tempos – Raul, Piazza, Natal, Toninho Cerezo, Dirceu Lopes, Palhinha e Hilton Oliveira,  entre muitos de seus grandes  craques que o Cruzeiro passa a dividir com o Atlético Mineiro a preferência da torcida das Alterosas.

Conta-se que quando o maior clássico do futebol de Minas Gerais era entre Atlético e América, nas decisões estaduais que aconteciam   entre o Galo Carijó e a Raposa, a diminuta galera do Cruzeiro em comparação  com a do adversário,  chegava cedo ao antigo estádio Independência,  bem antes do jogo começar. E à medida que a torcida do Galo passava a entrar, comprimia os cruzeirenses até entoca-los em um canto do estádio. Era uma diferença brutal. O que hoje é rigorosamente nivelado, embora a de um ou de outro ache que a sua é um pouco  maiorzinha...

Acompanhei a agonia do Cruzeiro nessas últimas partidas em que desesperadamente procurava fugir ao rebaixamento. Para um clube do seu porte, com o  elenco talvez mais caro do futebol brasileiro,   quase uma humilhação. Suas grandes e caríssimas estrelas –entre eles, Fred, Thiago Neves, Edilson, Fábio, Henrique e Robinho de salários fabulosos -  talvez não tenham se empenhado tanto em alguns jogos importantes, como pressão pelos salários ( “merrecas”...) atrasados em mais de dois meses. E haja a corda apertar no pescoço à medida que as rodadas avançavam para as finais.

No jogo com o CSA (o inicio da derrocada fatal),  depois com o Grêmio e ontem contra o Palmeiras, a má fase do Cruzeiro foi definitivamente selada. O rebaixamento à serie B do próximo ano não teve como ser driblado . Com todos os seus muito  títulos mineiros, outros tantos em nível nacional e inclusas as duas Copas Libertadores, o time foi ao fundo do poço. Como já se previra, com a revolta natural de sua galera,  sem justificar, todavia,   a fúria que se apossou dos mais exaltados no Mineirão.

Houve, sem dúvidas, os desmandos administrativos que devem ter contribuído também  para o fracasso do time em campo. Mas em situações análogas e por vezes   mais graves, outros times já conseguiram até ser campeões em disputas de títulos. 

É o futebol com seus caprichos, mistérios e outros fatores transcendentais,  que se traduzem na própria vida.

A foto que ilustra o texto é de uma das revistas que durante muitos anos recebia mensalmente por deferência do amigão e jornalista Marcos Guiotti,  a quem tive a felicidade de conhecer na Copa do Mundo de 1998 na França. Por longo período ele militou e até chefiou as equipes esportivas  das Rádios Globo-CBN de BH.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A cara do pai (5)

Theodorico Rodrigues era ríspido tanto dentro quanto fora de campo. Ele foi árbitro por longo tempo depois de revelado pelo futebol suburbano na metade dos anos 1950, naquela época uma parada indigesta para quem se aventurasse a ser juiz de futebol nos campinhos da periferia. Era preciso ter “aquilo roxo” para encarar craques e pernas de pau, principalmente estes, nos famosos “festivais” que começavam pela manhã e se estendiam até o final da tarde, quando era disputada a chamada prova de honra. O jogo que decidiria a taça da competição eliminatória disputada por cerca de 10 equipes.

Foi a disciplina em campo que caracterizou o estilo do futuro “Papa da Arbitragem” quando deixou o apito e passou a crítico de arbitragem na Rádio Marajoara e depois na Clube. Era tão rigoroso no gramado quanto ao microfone analisando o trabalho de ex-companheiros de ofício. Entre tantos que se aventuraram nessa nova função radiofônica, foi o mais famoso, tendo como concorrente mais forte, Manoel Nery Filho, o pioneiro nessa crítica específica.

Além do conhecimento técnico, contribuiu para o sucesso ao microfone, frases espirituosas cunhadas com ironia e mordacidade, uma sagacidade peculiar ao antigo árbitro Mario Vianna que por muito tempo fez sucesso na Rádio Globo. Alguns desses bordões de Theodorico:
“Esse árbitro árbitro é um paspalhão” (quando o juiz apitava deixando o jogo correr solto sem marcar faltas}; “Tá vendo visagem” ( se o árbitro errasse em marcação   inexistente ), “Passado na casca do alho” (juiz malandro), “saiu da figura A para a figura B (quando o impedimento se caracterizava de fato) “Catando piolho em cabeça de surucucu” (árbitro teria  inventado uma infração) e o goooolll legiiiitiiimo (para confirmar a legalidade do lance que originou o gol).

Ele nunca conseguiu se divorciar do espírito do policial durão que caracterizava seu comportamento. Embora tivesse relativo senso de humor. Cultivava seus “causos” tanto como policial quanto na arbitragem. E narrava-os com certa picardia.

O filho de Theodorico, Mauro Gilberto, desde cedo (14 anos) já mostrava a inclinação herdada do genitor ao apitar jogos em fins da década de 1980 no campo da Colônia Correicional de Menores na ilha de   Cotijuba onde o pai foi diretor por alguns anos. Naturalmente com o incentivo do “velho” e pouco tempo depois, já com 18 anos inscreveu-se e foi aprovado em um concurso de árbitro promovido pela Federação Paraense de Futebol. Rapidamente evoluiu na carreira chegando a apitar alguns Re-Pas, assim como atuar em partidas de competições nacionais fora de Belém. Encerrou a carreira em 1999 e, desde de então, tornou-se funcionário da Assembleia Legislativa do Estado (Alepa).


Mauro Gilberto
Theodorico era um crítico ácido




Os preferidos da mídia esportiva

  Resultado lógico na escolha dos três  narradores paraenses preferidos  de todos os tempos. Seleção feita por 26 de seus próprios colegas d...